A crise da Santa Casa da Misericórdia de Serpa está a transformar-se numa verdadeira batalha política entre PSD e PCP. Depois das duras críticas do deputado social-democrata Gonçalo Valente aos comunistas, é agora João Dias, antigo deputado e vereador do PCP na Câmara de Serpa, a responder e a colocar o Governo PSD no centro da polémica.
João Dias considera que Gonçalo Valente tem todo o direito de discordar da posição do PCP, mas entende que o deputado eleito por Beja deve explicar, antes de mais, o que está disposto a fazer junto do Governo para salvar a Misericórdia e garantir o futuro do Hospital de São Paulo.
A resposta surge num momento particularmente delicado para a instituição. Os associados da Santa Casa rejeitaram recentemente uma proposta de gestão partilhada de algumas valências com um grupo privado de saúde e, poucos dias depois, a Mesa Administrativa demitiu-se em bloco.
É neste contexto que João Dias devolve as acusações ao deputado do PSD.
“Já sabemos que, quando faltam argumentos, sobra a fuga às responsabilidades”, afirma.
O antigo deputado comunista considera que a primeira pergunta a responder é outra: “Qual é a responsabilidade do Governo PSD na situação a que chegou o Hospital de São Paulo e a Santa Casa da Misericórdia de Serpa?”
João Dias recorda que a gestão do hospital passou para a Misericórdia na sequência de uma decisão tomada pelo Governo PSD/CDS, em 2014. Segundo informação do próprio PCP, o hospital passou a ser gerido pela Santa Casa a partir de 2015, através de um acordo com o Estado.
Para João Dias, perante a atual crise, o debate não deve centrar-se nos ataques partidários, mas na responsabilidade do Estado e no futuro da unidade de saúde.
E é aqui que o antigo deputado reafirma a posição comunista: o Hospital de São Paulo deve regressar à esfera pública e ser integrado no Serviço Nacional de Saúde.
“Isto não é ideologia. É defender que a saúde é uma responsabilidade do Estado”, sustenta João Dias.
A proposta não é nova. O PCP tem defendido há vários anos a reversão do Hospital de São Paulo para a gestão pública, argumentando que a unidade pode desempenhar um papel importante na resposta hospitalar às populações de Serpa, Moura, Barrancos e parte de Mértola.
João Dias rejeita, por isso, a acusação de Gonçalo Valente de que os comunistas se opõem a soluções apenas por envolverem privados.
Na sua leitura, a questão essencial é saber quem deve assumir a responsabilidade por garantir cuidados de saúde à população.
“O acesso aos cuidados de saúde não pode ficar dependente da capacidade financeira de uma instituição social ou da disponibilidade de uma autarquia”, defende.
A resposta de João Dias vai ainda mais longe e transforma a experiência parlamentar de Gonçalo Valente num argumento político.
“Tendo eu próprio exercido funções de deputado durante mais de seis anos, sei que um mandato parlamentar exige responsabilidade política”, afirma.
Por isso, deixa um desafio direto ao social-democrata: “Antes de dar lições ao PCP, o deputado deveria começar por assumir a responsabilidade do Governo que o seu partido sustenta e dizer claramente o que pretende fazer pelo Hospital de São Paulo.”
A troca de acusações acontece depois de Gonçalo Valente ter acusado o PCP de colocar a ideologia à frente da procura de soluções e de ter defendido que a proposta de gestão partilhada com um grupo privado deveria ter sido considerada.
O deputado do PSD questionou ainda qual seria a alternativa dos comunistas para a Misericórdia e classificou como “utópica” a possibilidade de integração do Hospital de São Paulo no SNS.
João Dias responde agora que a alternativa existe e está identificada: devolver o hospital ao Estado.
A polémica deixa assim de estar apenas centrada na gestão da Santa Casa. Passa também a envolver diretamente o Governo, com o PCP a exigir que o executivo explique que responsabilidade assume e que solução pretende apresentar para uma instituição que atravessa uma das fases mais difíceis da sua história.
Enquanto isso, a crise continua a agravar a incerteza sobre o futuro da Misericórdia, dos seus trabalhadores e das respostas sociais e de saúde que presta à população de Serpa.