Baixo Alentejo pode tornar-se a “bateria de Portugal”: riqueza para a região ou negócio para outros? (Reportagem Rádio Pax)

Milhares de hectares identificados para acelerar a instalação de centrais solares, licenciamentos mais rápidos e uma questão que promete acompanhar o futuro do Baixo Alentejo: poderá a região transformar o seu enorme potencial solar numa verdadeira oportunidade de desenvolvimento ou corre o risco de produzir energia para o país ficando sobretudo com os impactos no território?

O debate ganhou uma nova dimensão com o Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis, o PSZAER, recentemente aprovado pelo Governo. O programa pretende identificar áreas particularmente adequadas à instalação de projetos renováveis, tornando o licenciamento mais rápido e previsível.

No Baixo Alentejo estão identificados 2.742 hectares destinados a zonas de aceleração para energia solar, distribuídos pelos concelhos de Aljustrel, Almodôvar, Alvito, Beja, Ferreira do Alentejo, Moura, Ourique e Vidigueira.

Para se perceber a dimensão, estamos a falar de uma superfície equivalente a mais de 3.800 campos de futebol.

Almodôvar surge com a maior área identificada, cerca de 1.634 hectares. Ourique aproxima-se dos 900 hectares e Beja ultrapassa os 200.

Mas há uma diferença importante: identificar estas áreas não significa que toda esta superfície vá automaticamente ficar coberta por painéis solares.

O objetivo das zonas de aceleração é criar condições para que projetos de energias renováveis possam avançar de forma mais célere e previsível em áreas previamente analisadas, mantendo salvaguardas ambientais, territoriais, paisagísticas e patrimoniais.

É precisamente aqui que começa a grande discussão: O sol existe. A questão é quem beneficia dele.

Poucas regiões portuguesas possuem condições tão evidentes para aproveitar a energia solar como o Alentejo.

Produzir eletricidade renovável pode contribuir para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, aumentar a produção nacional de energia, captar investimento e aproveitar economicamente um recurso natural abundante na região.

Para proprietários, o arrendamento de terrenos pode representar uma nova fonte de rendimento. Para os municípios, estes investimentos podem gerar atividade económica e receitas.

Mas a discussão não termina na quantidade de megawatts produzidos. Começa precisamente aí.

Porque se a energia é produzida no Baixo Alentejo e depois transportada para abastecer outras regiões do país, que benefício concreto permanece junto das populações que cedem o território?

Energia mais barata? Compensações financeiras? Receitas para municípios e freguesias? Investimento nas aldeias? Apoios às empresas locais? Novos equipamentos públicos?

Ou essencialmente painéis solares, linhas elétricas e alterações profundas na paisagem?

Foi precisamente esta questão que a Rádio Pax colocou a Marcelo Guerreiro, presidente da Câmara Municipal de Ourique.

O autarca não rejeita que o Baixo Alentejo possa assumir um papel determinante na produção energética nacional. Pelo contrário.

Para Marcelo Guerreiro, a região tem sol, território e condições naturais excecionais que justificam o aproveitamento deste potencial para produzir energia limpa, contribuir para a transição energética e atrair investimento.

Mas coloca uma condição no centro da discussão: que parte da riqueza criada fica efetivamente no Baixo Alentejo?

Guerreiro considera que o problema não está em a região colocar os seus recursos ao serviço do país. Surge quando o território suporta os impactos e disponibiliza os recursos sem que a riqueza gerada se traduza em benefícios proporcionais para as populações locais.

Marcelo Guerreiro introduz também uma comparação para colocar a dimensão das áreas em perspetiva.

Os cerca de 2.742 hectares identificados para as zonas de aceleração no Baixo Alentejo representam, segundo o autarca, pouco mais de 2% da dimensão da atual área regada de Alqueva, que aponta para cerca de 130 mil hectares.

Ou seja, na sua leitura, a discussão não deverá ser reduzida à dimensão territorial ocupada pelas renováveis.

O presidente da Câmara de Ourique estabelece mesmo um paralelo com a agricultura: da mesma maneira que a importância da produção agrícola alentejana poderia permitir chamar à região o “lagar de Portugal”, produzir uma parte significativa da energia renovável nacional não constitui, por si só, um problema.

A questão está nas condições em que isso acontece. E, sobretudo, no retorno que fica no território.

Existe ainda outra questão particularmente relevante numa região marcada pelo envelhecimento e pela perda de população: o emprego.

Uma central fotovoltaica de grande dimensão exige investimento e mão de obra durante a construção. Depois de concluída, porém, necessita normalmente de muito menos trabalhadores.

Marcelo Guerreiro chama precisamente a atenção para essa realidade.

Na sua perspetiva, não é possível esperar que a criação direta de postos de trabalho compense, por si só, a utilização de centenas de hectares durante várias décadas. Por isso, defende mecanismos que garantam que parte do valor económico criado permanece na região.

O autarca defende que a realidade fiscal e matricial dos prédios onde são realizados investimentos desta dimensão deve corresponder efetivamente à utilização económica existente, permitindo a cobrança do imposto devido e garantindo receitas aos municípios onde os projetos estão instalados.

Mas considera que isso não chega.

“A riqueza produzida no território tem de deixar riqueza no território”

Marcelo Guerreiro defende a criação de um verdadeiro princípio de compensação territorial associado à produção de energia.

A lógica é simples: se uma determinada região disponibiliza território e recursos naturais para responder a uma prioridade estratégica nacional, uma parte do valor criado deverá regressar às comunidades diretamente afetadas.

O modelo, admite, pode assumir diferentes formas.

Compensações financeiras aos municípios e freguesias, investimento direto nas comunidades, programas de eficiência energética, benefícios energéticos para famílias e empresas ou apoios ao desenvolvimento económico local são algumas das possibilidades apontadas.

O princípio defendido pelo presidente da Câmara de Ourique resume-se numa frase: a riqueza produzida no território tem de deixar riqueza no território.

E o que acontece à agricultura e à paisagem? A energia não ocupa um território vazio.

O Baixo Alentejo tem agricultura, montado, recursos naturais, biodiversidade, património e uma paisagem que constitui parte importante da identidade da região.

E tem também uma atividade turística que vende precisamente essa imagem: planícies abertas, horizontes extensos, montados e paisagens rurais.

A expansão das grandes centrais solares coloca, por isso, outra pergunta: até onde poderá avançar a produção energética sem entrar em conflito com outras utilizações do solo?

Marcelo Guerreiro rejeita aquilo que considera poder ser uma ocupação indiscriminada do território e defende que o planeamento deve proteger os solos de maior valor agrícola, os recursos naturais, a paisagem e outras atividades económicas fundamentais.

O desafio será encontrar um equilíbrio. Produzir energia sem comprometer agricultura. Atrair investimento sem descaracterizar a paisagem. Aproveitar o sol sem transformar o território numa sucessão contínua de infraestruturas energéticas.

Há, contudo, um impacto que Marcelo Guerreiro considera ainda mais preocupante: as linhas de alta e muito alta tensão necessárias para transportar a eletricidade produzida.

Uma linha elétrica pode atravessar dezenas de quilómetros, propriedades agrícolas, explorações e paisagens muito para além do local onde a energia é produzida.

É este impacto acumulado que preocupa o presidente da Câmara de Ourique.

Marcelo Guerreiro considera insuficiente analisar cada projeto isoladamente e escolher soluções sobretudo em função do menor custo para os promotores. Defende um planeamento territorial integrado das redes elétricas, com participação efetiva dos municípios.

E vai mais longe: entende que o Estado deverá ser mais exigente na opção por linhas subterrâneas nos traçados de maior impacto territorial e paisagístico, mesmo quando essa solução implique custos superiores para os investidores.

Na sua perspetiva, não deverão ser sistematicamente as populações e o território a suportar, durante décadas, os impactos resultantes da redução dos custos dos projetos.

A Rádio Pax insistiu: afinal, oportunidade ou ameaça?

Marcelo Guerreiro recusa reduzir a discussão a dois campos: os que estão a favor e os que estão contra as energias renováveis.

O presidente da Câmara de Ourique afirma-se favorável ao aproveitamento do potencial energético do Baixo Alentejo.

Para o autarca, aquilo que deve ser discutido é onde se instala, como se instala, qual o impacto e que retorno fica no território.

É também esse o verdadeiro centro do debate que a Rádio Pax quis levantar.

O Baixo Alentejo tem uma das maiores riquezas solares do país. Portugal precisa de aumentar a produção renovável e o PSZAER procura precisamente acelerar e tornar mais previsível a implantação destes projetos em áreas consideradas adequadas.

Mas produzir energia é apenas uma parte da equação. É preciso perceber o que acontece à agricultura, à paisagem e às comunidades. Saber quem suporta os impactos. Avaliar quantos empregos permanecem depois da construção. Determinar que receitas ficam nos municípios. E decidir que compensações deverão receber as populações que vivem junto destas infraestruturas.

Porque a pergunta decisiva talvez já não seja saber se o Baixo Alentejo vai produzir cada vez mais energia. Tudo indica que esse caminho já está a ser aberto. A verdadeira questão é outra: quando a eletricidade seguir pelas linhas de alta tensão para alimentar o país, que parte da riqueza ficará para trás?

Marcelo Guerreiro sintetiza a sua posição através de um princípio: o Baixo Alentejo pode produzir energia para Portugal, tal como já produz alimentos e outros recursos fundamentais, mas não deverá ficar apenas com os impactos enquanto a riqueza parte para outros territórios.

O sol é do Alentejo. A discussão dos próximos tempos passará por perceber quem fica, afinal, com a riqueza que ele produz, mas também por questionar se este modelo de produção energética é o caminho mais adequado para a região ou se existem alternativas capazes de conciliar melhor energia, território, agricultura, paisagem e desenvolvimento. São questões que ficam em aberto e que, certamente, continuarão a alimentar a reflexão e o debate no Baixo Alentejo.

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