Rutura no topo da Câmara Municipal de Beja. Liliana Cabecinha, vice-presidente da autarquia e número dois da coligação Beja Consegue, terá decidido suspender o mandato, num episódio que ameaça abalar a solução política que governa o município.
Liliana Cabecinha, eleita pela coligação que junta PSD, CDS-PP e Iniciativa Liberal, terá suspendido o mandato de vereadora e vice-presidente da Câmara Municipal, numa decisão que surge na sequência de divergências profundas e não recentes com o presidente Nuno Palma Ferro.
A relação entre os dois elementos da liderança municipal vinha, alegadamente, a deteriorar-se há algum tempo. Segundo uma fonte próxima da assessoria da Câmara de Beja, existem divergências significativas quanto à orientação política do executivo e, em particular, ao papel que a CDU, através do vereador Vítor Picado e de outros elementos ligados à estrutura municipal, estaria a assumir na governação da autarquia.
A mesma fonte descreve uma relação política cada vez mais difícil e afirma que Liliana Cabecinha não estaria disponível para aceitar aquilo que considera ser uma influência excessiva do PCP na condução dos destinos do município.
Esta questão ganha especial relevância porque a solução governativa encontrada em Beja juntou a coligação de direita liderada por Palma Ferro à CDU, permitindo ao executivo garantir uma maioria política. Vítor Picado assumiu pelouros no executivo municipal, numa solução considerada particularmente invulgar no panorama autárquico nacional.
É precisamente esta aproximação que, segundo a fonte da Rádio Pax, estará no centro da contestação de Liliana Cabecinha.
A mesma fonte afirma ainda que Nuno Palma Ferro terá levado estas divergências ao conhecimento do primeiro-ministro, Luís Montenegro, transmitindo-lhe a existência de uma incompatibilidade política com a vice-presidente. Segundo o relato, Palma Ferro terá caracterizado Liliana Cabecinha como alguém que “não verga”, numa referência à sua alegada oposição à influência da CDU na gestão municipal.
A confirmar-se, a suspensão do mandato representa um duro golpe na coligação que venceu as eleições autárquicas em Beja. O Beja Consegue foi a força mais votada, elegendo Nuno Palma Ferro e Liliana Cabecinha para o executivo municipal. A CDU e o PS elegeram dois vereadores cada e o Chega conseguiu eleger um representante.
A situação ganha ainda maior dimensão porque Liliana Cabecinha não era apenas uma vereadora: era a número dois da candidatura e assumiu desde o início um papel central no projeto político que levou Palma Ferro à presidência da Câmara. Durante a campanha, o próprio candidato apresentou Cabecinha como número dois da lista e como uma das figuras fundamentais do projeto de mudança para Beja.
Agora, a eventual saída da vice-presidente deixa no ar uma pergunta inevitável: estará em risco a própria arquitetura política que sustenta o atual executivo municipal?
Para já, tudo aponta para que João Brás da Silva, terceiro elemento da lista do Beja Consegue e técnico superior de diagnóstico e terapêutica no Hospital de Beja, avance para o cargo de vice-presidente. O nome deverá ser formalizado na próxima reunião de Câmara, marcada para quarta-feira, dia 9 de setembro.
Mas a crise poderá não terminar aí.
Segundo a informação transmitida à Rádio Pax, Liliana Cabecinha poderá regressar à Assembleia da República, onde anteriormente desempenhou funções de assessora parlamentar, caso avance nesse sentido.
A possível saída da vice-presidente poderá abrir, assim, uma nova frente de instabilidade política em Beja e colocar sob pressão a solução de governação construída após as eleições.
A coligação Beja Consegue ganhou as eleições prometendo uma mudança na governação municipal. Mas a aproximação à CDU, que permitiu garantir uma maioria no executivo, poderá agora estar a provocar uma fratura no próprio núcleo da coligação.
Para uma fonte do PSD, próxima da estrutura municipal, ouvida pela Rádio Pax, esta situação representa uma profunda contradição com as expectativas de parte do eleitorado que votou no Beja Consegue. A mesma fonte considera que a solução encontrada acabou por reforçar politicamente o PCP, numa autarquia onde, segundo essa leitura, a CDU tinha perdido peso eleitoral.
A suspensão de Liliana Cabecinha, caso seja formalmente confirmada, poderá transformar uma divergência interna numa das maiores crises políticas do atual mandato da Câmara de Beja.
Situação que colocará Palma Ferro perante um teste decisivo: manter a maioria que sustenta o executivo, gerir a relação com a CDU e, ao mesmo tempo, explicar aos eleitores da coligação o que aconteceu à equipa que prometeu “mudar Beja”.