Ciganos e o Bairro das Pedreiras

Ciganos e o Bairro das Pedreiras

Num debate autárquico na TV em 2005, apelidei de comunista ortodoxo o meu adversário da CDU. Para espanto meu, ficou muito exaltado e ofendido. Pois no meu entender, dizê-lo comunista não é uma ofensa, e embora não comungando com os seus ideias políticos, merecem-me respeito, pois carregam em si mais de uma centena de anos de luta de homens e mulheres que se sacrificaram, a si e às suas famílias, para combater um regime fora de prazo e inadmissível, permitindo, com outros políticos, que eu tivesse uma vida em liberdade. E ortodoxo, pois é a minha definição de quem é rígido no seu pensamento. Mas longe de mim que fosse um insulto. Nessa altura, disse-lhe que se me quisesse chamar de social-democrata liberal, estava à vontade, pois não me sentiria ofendido.

Não vale a pena já “crucificar” esta crónica por chamar os bois pelos nomes. Os ciganos, são ciganos o por si só nada tem de pejorativo. Eles amam a sua cultura, praticam-na e sentem orgulho nisso. Mas desse há uns anos para cá, parece que é um insulto, o que na verdade não é, e só serve para criar mais problemas do que soluções.

Posto isto, vamos ao que interessa. A nossa cidade e concelho, é diferente de todas as outras com a mesma dimensão, pois não há regiões, nem pessoas e culturas iguais. Terá nuns casos coisas melhores e outras piores. É natural. Mas tem uma particularidade que não é vulgar e que não está do lado das coisas boas. Nomeadamente, uma comunidade cigana de cerca de 600-700-800 pessoas que vivem em condições absolutamente desumanizadas, em condições de fazer corar qualquer bejense que se embrenhe no Bairro das Pedreiras.

Quando o projeto foi a reunião de Câmara, teve o voto favorável da CDU (3), que foi quem propôs, do PS (3) e a minha oposição, PSD (1). A CDU à época, não tinha a intenção de criar o que neste momento existe, pois, a ideia era ser um parque nómada, com o objetivo de criar uma rede no Alentejo e Espanha de parques onde os ciganos, na altura ainda muito nómadas, se pudessem acolher com um mínimo de dignidade. Até aí tudo bem, só que era muito provável que no futuro essa boa intenção fosse abalroada pela realidade, como aconteceu.

Anos mais tarde, agora comigo na Assembleia Municipal, o PS tentou recuperar as habitações destruídas com a intenção muito naif, de a partir daquele momento poder impor algumas regras.  Mais uma vez o PSD comigo, votou contra.

Dai para cá, o número dos ocupantes (residentes é um eufemismo) foi subindo, subindo, até nesta altura ser absolutamente insustentável.

A existência na cidade e arredores de sem abrigo e estrangeiros deambulando pelas ruas, tem feito secundarizar esta questão, mas ela está aí, e não se vai dissolver com a chuva.

A26, eletrificação do comboio, circular sul, aeroporto, tudo faz parte de uma estratégia de evolução de uma cidade e região. Mas não esqueçamos o Bairro das Pedreiras como nódoa da nossa cidade.

Para isso precisamos de um Plano, global, muito bem pensado e abrangente.  A altura dos projetos pilotos já passou, embora tragam algumas aprendizagens e pistas. Mas só com eles não vamos lá. Temos de ter um Plano, que demorará o seu tempo, facilmente uma década, mas tem de existir e começar a ser executado.  A C.M. de Beja não o conseguirá executar sozinha, nem o Governo por si só tem essa capacidade. São precisos os dois, e juntar a Sociedade Civil, as forças de Segurança, Associações Sociais, Culturais, Educação, Saúde, e até legislação adequada. Sem complexos de parte a parte. Mas com a firmeza de uma sociedade em que todos os lados têm direitos e deveres.

O consenso político deverá ser fácil de conseguir. A CDU que tem a responsabilidades de ter começado o problema, em nada se deve orgulhar do que ali se vê; o PS que sempre apoiou essa ideia, mas que em 12 anos (4 + 8) nada conseguiu para solucionar e controlar a situação, e que, desde o início também apoiou o projeto ; o PSD que até agora não teve responsabilidade, pois, quando chamado votou contra, agora tem a responsabilidade de ser governo autárquico. O Chega, não vejo como negará uma solução. Por isso, todos têm o dever de oferecer à cidade e região a cura deste cancro social, destituído de politiquices. Não será fácil, e não se simplifique com umas meras decisões avulsas, mas terá cura se for bem iniciado.

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Farmácia de serviço hoje na cidade de Beja

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