A criação de uma nova Brigada de Trânsito na GNR pode ser vista como um reforço importante na segurança rodoviária — e esse é um objetivo que todos devemos valorizar.
Mas há uma realidade que não pode continuar a ser ignorada.
Ao longo dos anos, sucessivos governos têm procurado deixar a sua marca através da criação de novas unidades, brigadas e valências especializadas. No entanto, muitas dessas decisões têm sido feitas à custa da missão base da GNR: a segurança de proximidade, assegurada pelos postos territoriais.
E isso tem consequências reais no território.
O declínio contínuo de efetivos nos postos territoriais está a fragilizar a presença no terreno, a reduzir a capacidade de resposta e a alimentar um crescente sentimento de insegurança junto das populações.
No distrito de Beja, essa realidade já é evidente: há postos onde não é possível garantir uma patrulha 24 horas por dia.
Quando o Estado se afasta, não cresce apenas o sentimento de insegurança — cresce também o sentimento de impunidade. E é nesse vazio que prosperam discursos simplistas e populistas, que exploram o medo e fragilizam a confiança nas instituições democráticas.
Acresce ainda que os militares colocados nos postos territoriais — que asseguram a função mais exigente e próxima das populações — são muitas vezes os mais penalizados: enfrentam condições difíceis, falta de equipamentos e uma remuneração que não reflete a responsabilidade e o risco que assumem diariamente.
Valorizar a segurança pública não é apenas criar novas estruturas. É garantir meios, dignidade e condições a quem está no terreno todos os dias. É reforçar a proximidade, prevenir o isolamento dos territórios e combater, pela presença do Estado, a insegurança, o abandono e o sentimento de impunidade.
Reforçar áreas específicas é importante, mas não pode significar abandonar o essencial. A segurança constrói-se com proximidade, com equilíbrio e com responsabilidade.
É esse caminho que não podemos perder.
Marcelo Guerreiro
Presidente da Câmara de Ourique