A suspensão do mandato de Liliana Cabecinha continua a dar que falar na política bejense. Maria João Ganhão, vereadora do Partido Socialista na Câmara de Beja, alerta para o risco do executivo ficar sem qualquer representação feminina e levanta dúvidas sobre as consequências políticas da saída temporária da vice-presidente.
Numa intervenção carregada de críticas, na última reunião de Câmara, mas também com uma forte componente pessoal, Maria João Ganhão considera que o caso está longe de poder ser encarado como uma simples substituição de uma vereadora.
Para a socialista, está em causa a suspensão de funções de uma mulher que ocupava um dos lugares de maior responsabilidade na governação municipal.
E deixa um alerta: pela primeira vez desde 2005, Beja poderá voltar a ter um executivo em funções sem qualquer mulher.
Maria João Ganhão considera que a questão ultrapassa o cumprimento das regras de representatividade. A presença feminina nos órgãos de decisão política é, na sua opinião, um elemento fundamental da própria democracia.
A vereadora do PS reage também aos comentários que têm surgido publicamente sobre os motivos que terão levado Liliana Cabecinha a suspender o mandato.
Sem identificar os autores de todas as declarações que critica, Maria João Ganhão aponta particularmente para comentários provenientes de pessoas com responsabilidades políticas e institucionais no distrito e considera que algumas das apreciações feitas são inadequadas.
Vai mesmo mais longe e classifica alguns desses comentários como tendo um carácter “misógino”.
A socialista rejeita igualmente qualquer tentativa de reduzir a participação feminina na política a uma questão de quotas.
Defende que as mulheres ocupam cargos políticos pela capacidade, competência, ideias e poder de decisão e não apenas para preencher lugares destinados a assegurar a representação dos dois sexos.
Mas a intervenção de Maria João Ganhão não se limitou à questão da igualdade entre homens e mulheres.
A vereadora dirigiu também críticas ao presidente da Câmara de Beja pelo silêncio que, segundo afirmou, manteve até ao momento sobre a suspensão de Liliana Cabecinha.
Para a eleita socialista, existe uma dimensão política e institucional que exige esclarecimentos, nomeadamente sobre as consequências da mudança para o funcionamento e estabilidade da governação municipal.
E é aqui que Maria João Ganhão coloca outra questão politicamente sensível.
A vereadora recorda que o atual executivo nasceu de uma coligação sufragada pelos bejenses, mas que, posteriormente, encontrou entendimentos no seio da oposição que lhe permitiram garantir uma maioria para governar.
Perante este novo cenário, considera legítimo perguntar se esses equilíbrios políticos estarão a produzir consequências no funcionamento interno e na estabilidade do executivo.
Na perspetiva da socialista, as soluções encontradas para assegurar uma maioria não podem colocar em causa a coesão, a estabilidade e a capacidade de decisão da Câmara Municipal.
A suspensão de Liliana Cabecinha ganha, desta forma, uma dimensão que ultrapassa a substituição de um nome no executivo.
Depois do PSD ter procurado afastar interpretações de crise e enquadrado a decisão numa opção pessoal da vereadora, o PS introduz agora novas interrogações no debate político: como fica a representação feminina, que consequências terá a saída da vice-presidente e até que ponto permanece sólido o equilíbrio político que sustenta a governação municipal?
Apesar das críticas, Maria João Ganhão terminou a intervenção deixando de lado as divergências partidárias.
Desejou felicidades pessoais, profissionais e políticas a Liliana Cabecinha nos novos desafios e sublinhou que as diferenças políticas não devem ultrapassar o respeito entre pessoas.
Uma mensagem de solidariedade que, no entanto, não apaga as questões políticas colocadas.
Liliana Cabecinha suspende o mandato, Beja poderá ficar com um executivo sem mulheres e o PS quer saber que consequências esta saída terá na estabilidade da Câmara.