A passagem do Instituto Politécnico de Beja a Universidade Politécnica de Beja abre uma nova etapa na história da instituição e coloca novos desafios a uma região que procura afirmar-se como território de conhecimento, inovação e captação de talento.
A mudança de estatuto, enquadrada pelo novo Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior, permite à instituição reforçar a sua aposta na formação avançada, nomeadamente através da criação de doutoramentos, mas também na investigação, na internacionalização e na ligação ao tecido empresarial e social do Alentejo.
Sem perder a identidade politécnica e a relação de proximidade com a comunidade, a Universidade Politécnica de Beja pretende assumir-se como um agente ainda mais relevante no desenvolvimento regional, criando condições para formar, atrair e fixar jovens, investigadores e profissionais qualificados.
Mas o que muda, afinal, no imediato? Que novos cursos e doutoramentos poderão surgir? Poderá o novo estatuto ajudar a captar mais estudantes, financiamento e investigadores? E de que forma pretende a nova Universidade transformar conhecimento em desenvolvimento económico e social para Beja e para o Alentejo?
É sobre estas e outras questões que a Rádio Pax falou, em exclusivo, com Aldo Passarinho, Presidente da Universidade Politécnica de Beja.
O que muda, na prática e no imediato, para o dia a dia da instituição e da sua comunidade académica com a passagem a Universidade Politécnica?
No imediato, a atividade da Universidade Politécnica prosseguirá com normalidade. A grande mudança é o novo enquadramento previsto no RJIES, que permite reforçar a formação avançada, a investigação e a internacionalização, mantendo a identidade politécnica assente na proximidade às pessoas, às empresas e ao território.
A Universidade Politécnica de Beja quer afirmar-se como uma instituição onde ensino, investigação e extensão à comunidade se reforçam mutuamente. O conhecimento produzido deve regressar à sociedade através da inovação, da prestação de serviços, da cooperação com as empresas, da valorização cultural e da resposta aos desafios concretos do Alentejo, contribuindo para o seu desenvolvimento.
Em que áreas prioritárias a UPBeja planeia lançar os seus primeiros doutoramentos?
A Universidade Politécnica de Beja já iniciou esse percurso com a participação, em consórcio, num doutoramento em Ciências do Desporto, recentemente acreditado pela A3ES. Esse é um primeiro passo importante, que demonstra que a instituição reúne competências para integrar formação doutoral de qualidade e criar redes de colaboração com outras instituições de ensino superior.
O objetivo é consolidar progressivamente esta capacidade, valorizando a classificação e o potencial das unidades e polos de investigação que atualmente temos (CREATE, CIEQV, SPRINT e CiTur), criando condições para reforçar a nossa oferta formativa de 3.º ciclo. Queremos fazê-lo nas áreas onde existe massa crítica, investigação reconhecida e maior alinhamento com a Estratégia Regional de Especialização Inteligente do Alentejo, como os sistemas agroalimentares, a gestão da água, a sustentabilidade, a saúde, a educação, as tecnologias digitais e o turismo. Estes doutoramentos deverão nascer em articulação com empresas, autarquias e organizações da sociedade, reforçando simultaneamente a investigação, a inovação e a extensão universitária.
De que forma esta alteração reforça a atratividade da UPBeja no recrutamento de novos estudantes, quer nacionais quer internacionais?
A possibilidade de oferecer formação desde os Cursos Técnicos Superiores Profissionais, passando pelas licenciaturas e mestrados até ao doutoramento, aumenta naturalmente a atratividade da Universidade Politécnica de Beja, sobretudo para estudantes que procuram percursos académicos completos e uma maior ligação à investigação e à inovação. Ao mesmo tempo, esta transição coloca-nos em igualdade de circunstâncias, em termos de enquadramento e comunicação institucional, com outras Universidades Politécnicas que já são uma realidade no espaço europeu.
Isso é particularmente importante para a internacionalização: permite-nos apresentar de forma mais uniforme, clara e imediatamente compreensível a nossa identidade e a nossa oferta aos estudantes internacionais, facilitando a comparação e o reconhecimento do nosso modelo de ensino no espaço europeu. Mas a nossa diferenciação continuará a assentar naquilo que fazemos melhor: uma universidade de proximidade, fortemente ligada ao território, onde os estudantes aprendem, investigam e intervêm em projetos reais com empresas, instituições sociais, municípios e comunidades locais, transformando conhecimento em valor para a região.
Como é que o estatuto universitário pode contribuir para fixar os jovens graduados e investigadores na região do Alentejo?
A fixação de talento exige oportunidades de qualificação avançada, investigação e emprego altamente qualificado. O novo enquadramento permite criar essas oportunidades, oferecendo percursos de doutoramento, reforçando os polos e os centros de investigação e desenvolvendo projetos em parceria com empresas, autarquias e instituições públicas.
O nosso objetivo é que a Universidade Politécnica de Beja seja um agente de desenvolvimento regional, formando pessoas que encontrem no Alentejo condições para construir aqui o seu projeto profissional e científico, contribuindo para uma economia mais sustentável, mais robusta, mais inovadora e mais atrativa para a fixação de jovens talentos.
Sendo a “investigação aplicada” um dos pilares reforçados, de que modo a UPBeja vai ligar o conhecimento produzido ao tecido empresarial e social do concelho e da região?
A investigação aplicada sempre fez parte da identidade do ensino politécnico e continuará a ser um dos principais fatores diferenciadores da Universidade Politécnica de Beja. Queremos alargar a nossa rede de parcerias e passar de uma lógica de colaboração pontual para uma lógica de cooperação estruturada, construindo projetos em co-design e co-criação com as empresas, instituições sociais, municípios e entidades públicas, identificando conjuntamente problemas, necessidades e oportunidades e desenvolvendo soluções com impacto económico e social.
Essa é também uma prioridade do Programa de Ação que apresentei aquando da minha candidatura: transformar protocolos em projetos efetivos de investigação, inovação e transferência de conhecimento, reforçando o papel da Universidade Politécnica de Beja como parceiro estratégico do desenvolvimento inteligente do Alentejo. E esta rede não deve ficar circunscrita ao território regional: queremos trabalhar com empresas e organizações de âmbito nacional e internacional, criando projetos em cooperação que tragam conhecimento e investimento para a região e, simultaneamente, levem o conhecimento e a capacidade de inovação produzidos em Beja para outros territórios.
O novo estatuto facilitará o acesso a novas linhas de financiamento comunitário e nacional para a ciência e ensino superior?
O novo enquadramento institucional poderá reforçar a capacidade competitiva da Universidade Politécnica de Beja para participar em programas nacionais e europeus que valorizam investigação avançada, doutoramentos, inovação e cooperação internacional. Naturalmente, o acesso ao financiamento continuará sempre dependente da qualidade dos projetos apresentados. Mas nisso, as nossas equipas têm dado provas de qualidade nos projetos apresentados.
Estamos particularmente bem posicionados quando esses programas privilegiam modelos colaborativos entre universidades, empresas, administrações públicas e organizações da sociedade, precisamente porque essa articulação faz parte da nossa missão e da estratégia de desenvolvimento inteligente do Alentejo.
Que impacto tem esta transição na valorização, na carreira e no recrutamento de novos docentes e investigadores doutorados?
A Universidade Politécnica de Beja criará melhores condições para atrair, reter e desenvolver docentes e investigadores altamente qualificados, através do crescimento da investigação, da criação de doutoramentos, da participação em redes internacionais e do desenvolvimento de projetos competitivos. Esta evolução deverá ser acompanhada pelo reforço das condições institucionais para o desenvolvimento das carreiras e pela criação de novas oportunidades para a investigação.
Queremos valorizar um modelo de carreira que reconheça a criação de conhecimento e a sua divulgação e projeção internacional, numa lógica de ciência aberta, mas também a inovação pedagógica, a transferência e valorização do conhecimento e o desenvolvimento de projetos em co-design e co-criação com empresas e outras entidades. É esta articulação entre conhecimento, ensino, inovação e sociedade que deve distinguir a missão da Universidade Politécnica de Beja e reforçar a sua capacidade para atrair e fixar talento.