Do Camboja para Milfontes: a história de amor que deu origem aos molhos “Temple Spicy” (Reportagem)

Do Camboja para Milfontes: a história de amor que deu origem aos molhos “Temple Spicy” (Reportagem)

Conheceram-se numa pequena aldeia do Camboja, apaixonaram-se do outro lado do mundo, regressaram ao Alentejo para construir uma família e hoje produzem molhos artesanais que já conquistaram restaurantes e lojas gourmet. Pedro Lebre e Sokhony Hok acabam de ver o seu percurso reconhecido com o segundo prémio na categoria Novas Iniciativas Empresariais do concurso Espírito Empreendedor, promovido pela Câmara Municipal de Odemira.

Há histórias que parecem escritas para um romance. A de Pedro Lebre, de 50 anos, e Sokhony Hok, de 40, começou a milhares de quilómetros da Costa Alentejana, numa pequena aldeia do Camboja onde ambos participavam num projeto de voluntariado. Hoje vivem em Vila Nova de Milfontes, têm dois filhos, produzem molhos caseiros sob a marca Temple Spicy e acabam de conquistar o segundo lugar na categoria Novas Iniciativas Empresariais do concurso Espírito Empreendedor.

À primeira vista, o prémio distingue uma empresa. Na verdade, reconhece um percurso de vida improvável, feito de mudanças radicais, viagens, encontros e da coragem de recomeçar.

Tudo começou quando Pedro decidiu abandonar a vida que tinha construído em Portugal.

“Na altura tinha 40 anos, uma empresa de formação profissional em Ferreira do Alentejo, salas de formação e vários projetos. Talvez tenha sido uma crise de meia-idade… ou simplesmente vontade de mudar. Vendi tudo e fui para a Ásia. A ideia era viajar durante um mês, mas acabei por ficar nove.”

A viagem tinha também um propósito solidário. Pedro integrou um projeto português de desenvolvimento comunitário numa pequena aldeia cambojana, onde viviam apenas dez famílias.

Foi aí que conheceu Sokhony.

Ela era a coordenadora local do projeto.

“Era a pessoa responsável pela gestão do projeto no terreno. Trabalhava connosco e fazia também a gestão dos donativos que permitiam pagar a escola das crianças da aldeia.”

O projeto procurava dar autonomia às famílias através de pequenas iniciativas económicas.

“Às vezes bastava investir 20 dólares na compra de um galo e duas galinhas. Passado pouco tempo já havia ovos, pintos e rendimento para vender às aldeias vizinhas. Era uma forma simples de criar independência financeira.”

O plano inicial era permanecer apenas quinze dias naquela aldeia.

Mas o destino tinha outros planos.

“Conhecemo-nos a 17 de dezembro de 2016. Quinze dias transformaram-se em um mês.”

Depois veio a vontade de continuar a descobrir a Ásia.

Pedro comprou uma mota e percorreu vários países. Passou pelo Laos, regressou ao Camboja, atravessou Myanmar, viajou pela Malásia, Indonésia e chegou a Bali. O próximo destino seria Timor-Leste, para integrar outro projeto de voluntariado. Nunca chegou a acontecer.

“Cancelei esse projeto. Voltei para trás. Arranjámos casa juntos, encontrei trabalho no Camboja e começámos uma vida em comum.”

Pouco tempo depois surgiu a notícia que mudaria definitivamente o rumo das suas vidas.

“Percebemos que havia ali um ovinho.”

Ao mesmo tempo, em Portugal, o pai de Pedro sofria um enfarte.

“Dois dias depois de sabermos que íamos ser pais, o meu pai teve um acidente cardíaco. Percebemos que estava na altura de regressar.”

Prepararam tudo para voltar. Foi em agosto que chegaram definitivamente a Portugal. O destino escolhido nunca esteve verdadeiramente em causa.

“Vila Nova de Milfontes sempre foi o meu lugar de férias desde a juventude. Os meus pais tinham aqui casa e pedimos para ficar cá enquanto reorganizávamos a nossa vida.”

Foi precisamente nesta vila da Costa Alentejana que começou a nascer o projeto empresarial.

No início nem sequer existia um plano de negócio. Existiam apenas amigos. Muitos amigos.

As viagens de Pedro tinham criado uma vasta rede internacional de contactos e, antes da pandemia, eram frequentes os jantares em casa.

À mesa apareciam sempre molhos preparados na hora pela Sokhony Hok, inspirados nos sabores asiáticos.

“As pessoas provavam os picantes, os molhos e havia sempre alguém que dizia: “Vocês deviam vender isto.” Durante muito tempo ficou apenas a sugestão. Até que um dia decidiram agir.

“Houve uma noite em que essa conversa voltou a surgir e eu disse: ‘Então começamos hoje.”

Assim nasceu a Temple Spicy.

Primeiro de forma muito artesanal, experimentando receitas, afinando sabores e testando o mercado.

A incubação do projeto aconteceu na Feira de São Luís, conhecida pelo ambiente alternativo e pela aposta em pequenos produtores. Foi ali que perceberam que existia espaço para crescer. Passo a passo. Sem pressas.

“Queremos crescer devagarinho, mas com passos consistentes.”

Hoje os molhos produzidos por Pedro e Sokhony já chegam a cerca de 40 restaurantes e 16 lojas gourmet.

O objetivo nunca passou por entrar nas grandes cadeias de distribuição.

“Preferimos trabalhar com o pequeno comércio especializado. Somos um projeto pequeno e queremos manter essa identidade.”

Toda a produção continua a ser feita em casa, onde também funciona a empresa.

Recentemente conseguiram ainda aprovar uma candidatura de incentivo ao emprego, que permitirá assegurar o salário de Pedro durante os próximos dois anos e consolidar o crescimento do negócio.

O segundo prémio no concurso Espírito Empreendedor representa mais do que um reconhecimento financeiro.

É a confirmação de que uma decisão tomada há dez anos, vender tudo, partir para a Ásia e aceitar o desconhecido acabou por mudar para sempre o rumo de duas vidas.

Hoje, entre o aroma das malaguetas, das especiarias asiáticas e do Atlântico que banha Vila Nova de Milfontes, Pedro Lebre e Sokhony Hok continuam a escrever uma história onde o amor, a coragem e o empreendedorismo se misturam na mesma receita.

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