Manuel Narra: Roer a corda

Governar em minoria, implica uma flexibilidade politica que poucos políticos têm.

António Costa, primeiro-ministro nos últimos seis anos, teve sempre essa capacidade de se ir adaptando aos tempos, às exigências e aos malabarismos políticos de quem lhe garantia a estabilidade governativa.

Mas como em tudo na vida, uma ação dá origem a uma reação, e quando as ações praticadas nos transmitem que não estamos no caminho certo, só podemos esperar uma reação, por vezes irracional, onde o sentido de estado é mandado às malvas porque importa é a sobrevivência da ocasião.

Isto vem a propósito, do resultado das eleições autárquicas, que foi má para a esquerda portuguesa, mas pior ainda, foi muito má para a CDU e por inerência, para o PCP.

Esta ligação, através do apoio parlamentar, ao PS, se teve muitos aspetos positivos na reconquista de direitos perdidos e na conquista de novos direitos especialmente para quem trabalha, tem tido um custo demasiado elevado para o PCP, e que nesta altura importava inverter, pois a continuar no mesmo trilho, o descalabro podia ser irremediável numas eleições legislativas a serem realizadas em 2023.

Se a proposta, legitima digo eu, do salário mínimo passar para os oitocentos e cinquenta euros no curto prazo, seria sempre uma utopia face ao contexto económico ou financeiro do tecido empresarial, a tentar sobreviver a uma crise pandémica arrasadora, já a forma irredutível de não ultrapassar os setecentos e cinco euros apresentados pelo governo PS, parece-me também ser demasiado curto para fazer face ao brutal aumento do custo de vida que está a assolar a Europa, resultante do descontrolado e injustificável aumento dos preços dos combustíveis fosseis.

Está criada uma situação que ninguém desejava, mas de bluff politico em bluff político, começando no Sr. Presidente da Republica e alastrando-se de forma incompreensível pelos partidos com assento parlamentar, acaba por empurrar, na pior altura, o país para umas eleições, que mais deputado menos deputado dos dois maiores partidos portugueses irá deixar tudo na mesma.

Serão pois as eleições dos partidos pequenos, que tentarão conquistar mais deputados, os da direita, e tentarão perder o menor número possível de deputados, os da esquerda.

Numa altura em que necessitamos de estabilidade para aproveitar o melhor possível os meios financeiros colocados à nossa disposição pela Europa (o PRR e o PT2030), eis que surge uma onda de irresponsabilidade generalizada de 230 eleitos (mas não escolhidos pelo povo, isso é de responsabilidade partidária), a mandarem às urtigas a lealdade que juraram defender quando da sua tomada de posse. Lembrar que essa lealdade é para com o País e para com as pessoas que os elegeram e não para com os partidos por onde foram eleitos.

E não vale a pena, agora, apontarem os dedos uns aos outros, tentado medir se o grau de culpa de uns é maior que o grau de culpa dos outros. TODOS são culpados e no fim quem vai pagar a fatura é o povo.

Venham de lá as eleições, para que tudo fique na mesma.

Manuel Luís Narra

Ex Presidente do Município de Vidigueira