Marcos Aguiar: Vão trabalhar malandros

É quase um lugar-comum ouvir dizer que “os portugueses não querem é trabalhar”. Esta é uma afirmação recorrente no discurso irresponsável de certa elite económica e política, particularmente dos que estão enleados na teia de interesses que tem garrotado o desenvolvimento do nosso país – os tais que só se lembram do Estado quando têm o rabo preso.
“Há trabalho, não há é quem queira trabalhar”, dizem à boca cheia, como se estivessem a falar à “criadagem” lá de casa. Então, se é assim, como se explica que Portugal seja dos países da Europa em que a relação entre a taxa de emprego e o número de ofertas de emprego seja das mais baixas? Por outro lado, como se compreende que a Alemanha (esse modelo de perfeição) tenha das mais altas taxas de ofertas de emprego não preenchidas? Quererá isto dizer que os alemães são ainda mais preguiçosos que os portugueses? Claro que não!
Vamos a factos: os portugueses, particularmente os mais qualificados (mas não só), continuam a emigrar e a desenvolver carreiras profissionais bem-sucedidas no estrangeiro. Ou seja, não há nenhum fator intrínseco à “subespécie” que faça com que os lusitanos sejam geneticamente mais preguiçosos que os outros Sapiens Sapiens.
Então, porque razão continuam a haver empregos que não são preenchidos em Portugal (ainda que em menor percentagem que na Alemanha)? Ocorrem-me imediatamente duas razões:
A primeira razão, mais complexa, tem a ver com fim de um ciclo em que os sistemas de ensino e qualificação proporcionavam ao mercado de trabalho um fluxo constante de pessoas com competências suficientes para responder às suas necessidades. Já no atual paradigma de mercado de trabalho, muito mais dinâmico e volátil, é difícil encontrar as pessoas certas para determinadas funções e existem cada vez mais organizações à procura destas pessoas especializadas – por isso, também, é fácil aos portugueses qualificados encontrarem trabalho nos países mais desenvolvidos.
A segunda, mais simples e estatisticamente mais relevante, é a mesma que atrai para Portugal pessoas oriundas de países menos desenvolvidos (fenómeno que crescerá exponencialmente nos próximos anos, em particular no Alentejo) e, ao mesmo tempo, continuará a levar muitos portugueses a sair do país – os baixos salários. Quer os que entram, quer os que saem, procuram ser melhor remunerados que no seu país de origem. É, pois, principalmente, por esta última razão que continuam a haver empregos vagos que ninguém preenche – porque são mal pagos – seja em Portugal, na Roménia, na Tailândia ou na Alemanha…
Enquanto estas razões não forem compreendidas e plenamente assumidas, continuaremos a adiar o desenvolvimento do nosso país. Persistiremos em formar jovens que, não aceitando trabalhar “por tuta-e-meia”, vão valorizar outros países com as suas competências e talentos. Em contrapartida, receberemos desordenadamente e ao sabor da necessidade voraz do mercado de trabalho, milhares de outros, estrangeiros, pobres, desamparados e menos competentes do ponto de vista profissional e social, que preencherão ad hoc o espaço deixado pelos que partiram. Estes fluxos populacionais são imparáveis e transformar-nos-ão num país diferente – para melhor ou para pior, dependerá das nossas escolhas no presente!
Dá trabalho a uma certa elite irresponsável perceber isto? Se calhar dá algum trabalho, mas esperemos que não tanto ao ponto de termos de lhes gritar aos ouvidos: vão trabalhar malandros (de preferência para o estrangeiro)!