Opinião: Joaquim Estevens

Amigos, ouvintes da Rádio Pax:

Agradecendo o amável convite dessa estação para dissertar sobre assunto à minha vontade, é esta a minha modesta prosa, valendo aquilo que vale e que corresponde inteiramente à minha opinião.

Há quase cinquenta e cinco anos, eu qual, menino e moço, chegava a Beja para prosseguir os meus estudos, além da escola primária: Foram anos de boa aprendizagem, quer na antiga escola comercial, quer no antigo liceu, perdurando até aos dias de hoje, grandes ensinamentos e amizades desses tempos, tanto a colegas como a professores.

Para um rapaz, vindo da aldeia e dum concelho pobre do distrito, quase tudo era novidade e causa de deslumbramento: A cidade ensaiava os primeiros passos no seu desenvolvimento; O bairro alemão, estava em construção e a base aérea começava a surgir com pujança; a comunidade alemã, ia-se fixando aos poucos, contribuindo para o arejamento de mentalidades. As atividades económicas iam-se afirmando, com o comércio, a construção civil, a banca, os seguros, e os serviços a modernizar-se e a instalar-se, e tudo a tomar dimensão, precisando e consumindo assim, digamos, uma nova mão-de-obra. A agricultura, ia conhecendo novas e mais modernas maquinarias, com novas técnicas e outros horizontes, ia saindo daquela apatia tão característica do setor primário, até meados do século passado. Mas, Beja a capital do distrito, apresentava entre outras, duas grandes lacunas se comparada com outras capitais: Um polo industrial dinâmico capaz de absorver a produção da região e a mão-de-obra excedentes dos outros setores e também um polo universitários, que estivesse vocacionado para as potencialidades da região.

Nesse tempo, quem acabava os cursos comerciais, tinha atividades supra citadas, emprego garantido, mas quem tinha cursado setores ligados a outros ramos, tinha que procurar outras paragens para governar a vida. Cegou o 25 de Abril e logo se pensou que tudo se ia alterar e que a capital do Baixo Alentejo iria finalmente conhecer nova vida e novo rumo, ombreando com outras cidades e regiões do país. Passou-se o último quarto do século passado, desperdiçando ou não sabendo aproveitar oportunidades, para além da voracidade das novas tecnologias, das grandes superfícies comerciais e por vias dum esquecimento dos poderes centrais, Beja e a região, pouco ou nada, inverteram nas situações atrás referidas: Exceção feita, obviamente ao ensino superior, que viria a ter importância económica e social considerável na cidade. Entrámos no século vinte e um e logo está passado o seu primeiro quarto e parece que tudo aquilo que era mau no passado se agravou, sendo Beja hoje, uma  cidade triste e sem vida, que caminha a passos largos para uma plena desertificação, quer de pessoas quer de projetos inovadores.

Dirão alguns que sou pessimista ou que esqueço aquilo que de bom existe na cidade e na região e que não valorizo o progresso das ultimas décadas: Talvez seja, mas nesta altura, quando toda a gente procura o desenvolvimento e a modernidade, eu custa-me muito encarar as ruas desertas desta velha urbe; custa-me muito ver o pequeno comércio e os pequenos empresários a definhar de dia para dia; custa-me muito o desemprego e a falta de oportunidades para os mais jovens, que hoje como ontem, têm de deixar as suas raízes e procurar fazer vida noutros sítios, contribuindo assim, para a tão falada desertificação.

A cidade de Beja está letárgica e triste, parecendo até sem ambição, estando o seu centro comercial e o seu centro histórico, sem aquele bulício que é próprio das localidades com vida. Beja começa a viver numa triste paz, onde pouco acontece e os mais novos, logo que podem, abalam em busca de locais mais aprazíveis, quer em termos profissionais, quer em termos de vivência do seu dia-a-dia. Será que ninguém consegue inverter isto? O que faz falta para a cidade atrair e fixar gente? Será que Beja não consegue atrair investidores? Porquê a razão deste estado de quase abandono? O que faz falta? Será que o assunto aeroporto está bem resolvido? O caso das acessibilidades e dos meios de transportes estarão a condicionar o desenvolvimento? Por último, será que estas minhas dúvidas e constatações têm merecido dos poderes constituídos e dos políticos a atenção devida e que os bejenses merecem? Parece que não!

Devemos interrogar-nos, o que pode cada um de nós fazer para mudar isto! Deixemo-nos quanto antes de guerras de capelinhas, e politiquices bacocas, que não conduzem a lado nenhum e vamos pensar nisto e à séria, porque qualquer dia e não já muito longe, será tarde demais se não o for já!

Quem visita outras cidades e outras localidades do país, comparando o nosso atraso e pacatez, certamente ficará abismado com a comparação; Urge muito rapidamente alterar este estado de coisas, explorando devidamente a nossa central localização, os espaços e recursos existentes, a simpatia e o caráter das nossas gentes, a nossa cultura e tradições, enfim, outros haverá, mas temos um sem número de virtudes que parecem estar adormecidas e que podem fazer a diferença e fazer avançar uma cidade que tem muita história para se orgulhar.

Amigos, vale a pena pensar nisto, e como é tempo desta maldita pandemia, e que a todos tem atingido, aproveito para vos recomendar: CUIDEM-SE, porque o tempo não está para mangações e depois… Não haverá remédio nem vacinas que obstem ao mal!

Joaquim Estevens

Empresário e Diretor da Rádio Pax