Vítor Silva: As intermitências da morte

“Naquele dia ninguém morreu.” Assim começa o excelente romance de José Saramago, “As Intermitências da Morte”. Nesta obra a Morte resolve entrar em greve e contrariamente àquilo que parecia ser uma boa notícia, o facto de ninguém morrer só veio trazer problemas. Quem ainda não a leu que o faça, pois que não dará o tempo de leitura por mal-empregado.
Claro que esta imaginativa história de Saramago é uma impossibilidade. Se há coisa de que a Morte não se cansa, é de trabalhar, ceifando continuamente pessoas na seara da vida. Durante toda a nossa existência terrena somos confrontados com Ela. Vemos desaparecer familiares, amigos e conhecidos. Mas à medida que a idade se vai alongando torna-se evidente que Ela nos está a espreitar num futuro não muito longínquo. E este sentimento mais se acentua quando é a rapaziada da minha geração, já com uma respeitável idade, que começa a desaparecer em grande número.
Vem esta lúgubre crónica a propósito do recente falecimento do Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés, rapaz da minha geração. O Xutos são uma banda de que gosto, mas não ao ponto de ser um fã. Assisti ao vivo a alguns concertos deles, inclusive ao primeiro que deram em Beja. E isto porque fui eu que o organizei.
Poucos se lembrarãodesse concerto. É natural, pois que tal ocorreu há mais de trinta anos, em meados da década de oitenta do século passado n’Os Infantes, num sábado à tarde. Tocaram os Xutos para uma assistência de uma meia centena dejovens. Cabiam alguns mais na sala, mas foramesses os que vieram. É verdade que a banda não era ainda muito conhecida. Esforçaram-se os artistas, mas ninguém da assistênciaaplaudiu uma única vez, por timidez, porque não gostou ou por qualquer outra razão, perante alguma irritação e até desespero dos músicos.
Fui eu que conduzi o veículo que os levou de volta a Lisboa. Nem eu, nem ninguém que os viu e ouviu naquela tarde de sábado, suspeitaria que haveriam de se transformar na maior banda de rock portuguesa. E agora, depois da morte do Zé Pedro, não será certamente a mesma.