Vítor Silva: De olhos em bico

Se lermos e ouvirmos apenas os comentadores do dia a dia, que de tudo falam, mas que de quase nada sabem, não teremos uma perspectiva de para onde caminha o mundo. Apenas no que às possíveis alterações climáticas ouvimos com frequência falar, porque aparentemente elas já estão a fazer-se sentir.
Mas há quem reflita sobre o futuro em termos de evolução económica, política e militar, mas cujo pensamento não merece a atenção dos grandes meios de comunicação, a quem interessa quase exclusivamente o imediato. E todos esses pensadores apontam uma tendência que é a de que o poder económico se está a deslocar para oriente, fundamentalmente para a China. Obviamente, a par desse poderio económico crescente, o poderio militar chinês também tem crescido muitíssimo e, como consequência desses dois factores, o peso político da China é cada vez mais relevante a nível mundial.
Onde estes pensadores divergem é na previsão. Uns que a China se tornará a prazo na única verdadeira potência mundial, substituindo os Estados Unidos, outros que os americanos repartirão com aos chineses o domínio do mundo. O futuro dará a resposta a esta questão.
Agora o que parece inevitável é o declínio da Europa, o que aliás já está a acontecer. Sem poderio militar relevante fora do contexto da NATO, que é o mesmo que dizer independentemente dos americanos, a Europa tem visto a sua indústria definhar ou em alternativa a ser vendida aos chineses. (A China acaba de entrar no capital da Mercedes. O exemplo português também é paradigmático, com os chineses a dominarem o sector da produção e da distribuição de energia eléctrica).
A Europa nem sequer tem capacidade para “fabricar” as crianças necessárias para preencher os postos de trabalho de que necessita. Se nada mudar, e não se vislumbra como, serão emigrantes de fora da Europa a virem ocupar esses postos de trabalho. (É ver o que se está a passar na agricultura alentejana).
A prazo podemos ter uma Europa com pouca indústria, alguma, embora importante, agricultura e um sector terciário, isto é, dos serviços ainda mais importante do que é hoje, mas em grande parte constituído por serviços turísticos. E quem serão os turistas que virão visitar a Europa? Virão de todo o mundo, como aliás sempre aconteceu. Mas a manterem-se as tendências actuais dentro de muito pouco tempo a maioria dos turistas na Europa serão chineses.
É caso para dizer que estas previsões são de nos deixar de olhos em bico.