Sofás, móveis velhos, eletrodomésticos, colchões e todo o tipo de objetos abandonados à beira das estradas, junto aos contentores ou em terrenos. O cenário repete-se vezes sem conta e a pergunta começa a ser inevitável: até quando terá a maioria de pagar pela falta de civismo de alguns?
Não estamos perante um episódio isolado. Em diferentes zonas do concelho de Beja, e também noutros pontos da região, quase diariamente surgem novos amontoados de monos despejados onde não deveriam estar.
Denuncia-se. Fotografa-se. Recolhe-se. Limpa-se.
E pouco tempo depois, muitas vezes, está tudo outra vez na mesma.
O mais revoltante é que, em muitos casos, não existe sequer a desculpa de não haver alternativa.
A recolha de monos pode ser solicitada gratuitamente.
Não custa dinheiro. Existem serviços preparados para receber os pedidos e retirar estes resíduos. Mesmo assim, há quem prefira carregar móveis, colchões ou eletrodomésticos para uma viatura, percorrer uma determinada distância e simplesmente despejá-los à beira de uma estrada ou ao lado de um contentor.
É difícil compreender.
Mas ainda mais difícil é aceitar que a irresponsabilidade de alguns continue a ser paga por todos.
Porque o lixo não desaparece sozinho.
Cada amontoado abandonado obriga os serviços das freguesias ou das autarquias a deslocar trabalhadores para o local. São necessárias viaturas, combustível, equipamentos e horas de trabalho.
E esses funcionários estavam destinados a fazer outras tarefas.
Enquanto recolhem aquilo que alguém decidiu abandonar ilegalmente, ficam para trás trabalhos de limpeza, manutenção de espaços públicos ou outras intervenções necessárias à população.
Ou seja: um gesto de profundo desrespeito de alguns acaba por prejudicar toda a comunidade.
E não se trata apenas de uma questão estética.
O abandono indiscriminado de resíduos degrada o espaço público, prejudica o ambiente, transmite uma imagem de abandono e obriga a gastar recursos públicos que poderiam ser utilizados noutras necessidades.
Há ainda outro problema.
Quando um monte de lixo permanece num determinado local, pode surgir rapidamente outro. Depois mais um. Um sofá abandonado parece funcionar como convite para aparecer um colchão, uma cadeira, um frigorífico ou sacos de resíduos.
Em pouco tempo, aquilo que deveria ser espaço público transforma-se numa lixeira improvisada.
É legítimo, por isso, perguntar onde termina a falta de informação e onde começa simplesmente a falta de respeito.
Porque quando existe recolha gratuita, quando existem alternativas e quando repetidamente se informa a população sobre os procedimentos disponíveis, torna-se cada vez mais difícil justificar determinados comportamentos com desconhecimento.
Não é o município, não são as freguesias e não são os funcionários que sujam estes locais. São pessoas.
Depois, são precisamente os recursos de todos os contribuintes que têm de ser utilizados para reparar aquilo que alguns decidiram estragar.
A responsabilidade de manter uma cidade, uma aldeia ou uma freguesia limpa não pode estar exclusivamente do lado dos serviços públicos.
Nenhuma autarquia consegue colocar um funcionário atrás de cada cidadão para verificar onde este decide abandonar um sofá, um colchão ou um eletrodoméstico.
Há uma responsabilidade individual que não pode continuar a ser ignorada.
E talvez seja essa a parte mais preocupante de todo este problema: não faltam apenas soluções para o lixo. Em alguns casos, falta civismo.
Os serviços voltarão a recolher os resíduos. As viaturas voltarão a sair. Os trabalhadores voltarão a limpar. E a fatura, direta ou indiretamente, voltará a ser suportada pela comunidade.
Até aparecer o próximo monte.
Por isso, perante imagens que continuam a repetir-se, fica uma pergunta incómoda, mas cada vez mais necessária: quantas vezes teremos todos de pagar para limpar aquilo que alguns continuam, deliberadamente, a sujar?