Todos os anos, no dia 1 de junho, celebra-se o Dia Mundial da Criança. Entre festas escolares, atividades lúdicas, brinquedos e mensagens ternurentas nas redes sociais, a data costuma ser associada à alegria, à inocência e ao universo mágico da infância. Contudo, mais do que um dia de celebração, esta efeméride deve servir como um momento de reflexão profunda sobre a realidade das crianças no mundo atual.
A infância deveria ser sinónimo de proteção, educação, afeto e oportunidades. Infelizmente, para milhões de crianças, esta continua a ser uma realidade distante. Em várias partes do mundo, muitas vivem em cenários de pobreza extrema, violência, guerra, exploração laboral e abandono escolar. Mesmo em sociedades desenvolvidas, persistem problemas graves como o bullying, a negligência familiar, os abusos físicos e psicológicos, bem como as desigualdades no acesso à educação e à saúde.
Celebrar o Dia Mundial da Criança sem discutir estas questões seria transformar a data numa simples formalidade simbólica. As crianças não precisam apenas de presentes ou atividades recreativas; precisam sobretudo de adultos conscientes, políticas públicas eficazes e sociedades comprometidas com os seus direitos.
A própria criação desta efeméride teve esse propósito. O Dia Mundial da Criança nasceu como forma de sensibilizar os governos e as populações para a necessidade de garantir os direitos fundamentais das crianças, consagrados posteriormente na Convenção sobre os Direitos da Criança das Nações Unidas. Direito à educação, à alimentação, à saúde, à proteção e à participação social não devem ser privilégios, mas garantias universais.
Hoje, novos desafios surgem com grande intensidade. A dependência excessiva das tecnologias, a exposição precoce às redes sociais, os perigos da internet e os impactos da saúde mental na infância exigem atenção urgente. Muitas crianças crescem rodeadas de estímulos digitais, mas carentes de diálogo, tempo em família e acompanhamento emocional. A sociedade moderna corre o risco de oferecer entretenimento em excesso e escuta em falta.
Outro aspeto preocupante é a desigualdade social. Ainda existem crianças que chegam à escola com fome, sem materiais escolares adequados ou sem condições dignas de habitação. Esta realidade deve indignar-nos a todos, porque o futuro de qualquer sociedade depende diretamente da forma como trata as suas crianças no presente.
No distrito de Beja, esta realidade assume contornos particularmente exigentes. Existem instituições particulares de solidariedade social e outras entidades que diariamente se dedicam à proteção de crianças em situação de risco, muitas vezes substituindo-se ao próprio Estado em áreas fundamentais do acompanhamento social e emocional. São instituições que trabalham com enorme dedicação, apesar das limitações financeiras e humanas que enfrentam.
O mais preocupante é que, além das dificuldades naturais da sua missão, estas instituições têm ainda de enfrentar uma burocracia interminável para conseguirem oferecer um acompanhamento digno às crianças que acolhem e apoiam. Processos administrativos lentos, exigências constantes e falta de respostas atempadas acabam por consumir tempo, recursos e energia que deveriam estar concentrados no essencial: proteger e cuidar das crianças.
Mas há uma contradição ainda mais grave. Muitas destas IPSS lutam diariamente para contratar técnicos especializados, como psicólogos, terapeutas ou assistentes sociais, porque o próprio Estado lhes faz concorrência direta e desigual. Enquanto os serviços públicos conseguem oferecer salários mais elevados, maior estabilidade e melhores condições, as instituições sociais, com orçamentos reduzidos e dependentes de apoios limitados, não conseguem acompanhar essa realidade.
O resultado é evidente: os profissionais escolhem naturalmente as entidades que lhes oferecem melhores condições. E ninguém os pode censurar por isso. Contudo, esta situação cria um desequilíbrio profundamente injusto. O Estado exige respostas às IPSS, encaminha-lhes casos complexos e reconhece publicamente a importância do seu trabalho, mas simultaneamente retira-lhes os recursos humanos necessários para continuarem a cumprir essa missão.
Importa perguntar: em que situação ficaria o Estado se estas instituições resolvessem parar a sua atividade? Quantas crianças ficariam sem acompanhamento? Quantas famílias perderiam apoio? Quantos processos deixariam de ter resposta? A verdade é simples e incómoda: grande parte da proteção social às crianças em Portugal assenta diariamente no esforço silencioso destas instituições e dos seus profissionais.
Mais do que proteger as crianças, é necessário também proteger quem cuida delas. Não basta elogiar o trabalho das IPSS em discursos oficiais ou em datas simbólicas. É indispensável criar condições reais para que possam funcionar com dignidade, estabilidade e capacidade técnica. Defender as crianças implica também defender as instituições que estão no terreno, muitas vezes em permanente luta pela sobrevivência financeira.
O Dia Mundial da Criança deve, portanto, ser encarado como um apelo à responsabilidade coletiva. Pais, professores, governantes e cidadãos têm o dever de criar condições para que cada criança possa crescer com dignidade, segurança e esperança. Não basta afirmar que as crianças são “o futuro”; é preciso reconhecer que elas são também o presente e merecem viver plenamente essa condição.
Em última análise, a forma como uma sociedade trata as suas crianças revela o seu verdadeiro grau de humanidade. Celebrar esta data é importante, mas agir diariamente em defesa da infância é indispensável.