As dificuldades na aprendizagem da leitura podem estar a começar muito antes de as crianças entrarem no ensino básico. Esta é uma das conclusões do Projeto LER, coordenado pela Universidade de Évora, que acompanhou cerca de 6.500 crianças e encontrou diferenças significativas nas competências linguísticas e cognitivas logo nos primeiros anos.
A investigação envolveu 184 escolas de várias regiões do país e acompanhou mais de três mil alunos em diferentes momentos do ano letivo. Os investigadores defendem que esperar pelos anos mais avançados para corrigir problemas de leitura pode significar perder uma oportunidade decisiva.
Os resultados mostram uma progressão considerada lenta. Cerca de metade das crianças avaliadas não consegue ler mais de 39 palavras por minuto, enquanto um quarto fica abaixo das 21 palavras por minuto.
Mas o estudo revela outro dado particularmente preocupante: as diferenças entre crianças estão fortemente relacionadas com o contexto socioeconómico e cultural das famílias. Segundo Isabel Leite, professora de Psicologia da Universidade de Évora e coordenadora do projeto, o chamado “efeito família” ajuda a explicar grande parte das disparidades encontradas no desempenho.
A investigação concluiu ainda que as diferenças observadas entre escolas públicas e privadas diminuem significativamente quando é considerada a composição socioeconómica das comunidades escolares.
Perante estes resultados, os investigadores defendem que a resposta deve começar cedo, ainda no pré-escolar. Estimular a consciência fonológica, aumentar o contacto com livros e histórias e criar hábitos de leitura regulares são algumas das medidas apontadas.
O Projeto LER analisou também a capacidade dos profissionais de educação para identificar dificuldades. A comparação entre as avaliações de professores e educadores e as realizadas pela equipa de investigação revelou áreas onde poderá ser necessário reforçar a formação.
Para Isabel Leite, intervir nos primeiros anos é mais eficaz e também menos dispendioso para as famílias e para o sistema educativo. A investigadora alerta que, quando as dificuldades são detetadas mais tarde, a recuperação torna-se muito mais difícil.
As crianças envolvidas no estudo continuam a ser acompanhadas, permitindo aos investigadores perceber como evoluem as competências ao longo de dois anos.
A mensagem deixada pela Universidade de Évora é clara: as desigualdades na aprendizagem da leitura não começam necessariamente na sala de aula. Podem começar muito antes e quanto mais tarde forem detetadas, mais difícil será corrigi-las.