Água do Tejo pode chegar a Alqueva: ligação histórica começa finalmente a sair do papel

Água do Tejo pode chegar a Alqueva: ligação histórica começa finalmente a sair do papel

Trazer água do Tejo para reforçar o Guadiana e dar uma nova reserva estratégica a Alqueva. Uma ideia discutida há anos no Alentejo começa agora a aproximar-se de uma análise concreta. A CCDR Alentejo e a EDIA estão a preparar o caminho para um grande estudo que deverá dizer se a ligação é tecnicamente possível, quanto poderá custar e, sobretudo, o que poderá representar para a economia da região.

A Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo e a Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva reuniram-se no passado dia 8 de setembro, depois de o presidente da CCDR, Ricardo Pinheiro, ter anunciado a intenção de preparar uma candidatura ao Programa Regional para financiar o estudo.

O que está em causa é uma eventual transferência de água entre duas das maiores bacias hidrográficas portuguesas.

Entre os cenários divulgados está uma transferência próxima dos 150 hectómetros cúbicos de água para o sistema do Guadiana, quantidade que poderá permitir aumentar em mais de 50 mil hectares a área de regadio associada a Alqueva. Estes valores são, nesta fase, hipóteses de trabalho e não correspondem ainda a uma decisão de execução.

Mas Ricardo Pinheiro quer que o estudo vá além dos tubos, canais, estações elevatórias e restantes questões de engenharia.

A CCDR pretende perceber qual seria o impacto económico de uma infraestrutura desta dimensão nas diferentes zonas do Alentejo e de que forma uma maior disponibilidade de água poderia alterar a capacidade produtiva e o desenvolvimento do território.

A discussão, contudo, está longe de ser nova. Em março de 2025, o presidente da Câmara de Ourique, Marcelo Guerreiro, já defendia publicamente que Alqueva precisava de ser reforçado através de uma ligação de norte para sul, com água proveniente do Tejo.

O autarca considerava insuficiente que a estratégia nacional “Água que Une” remetesse a solução apenas para estudo e defendia que uma maior disponibilidade de água em Alqueva seria necessária para responder às alterações climáticas e a novas necessidades no sul do país.

Essa estratégia previa estudar a viabilidade da ligação Tejo–Guadiana através da adução Nisa–Caia, num horizonte entre 2030 e 2043. Antes disso, entre 2026 e 2030, estava prevista a interligação entre Alqueva e o sistema do Mira, estimada então em 35 milhões de euros.

Entretanto, a pressão sobre Alqueva continua a aumentar. Em fevereiro deste ano, o Governo anunciou a possibilidade de disponibilizar até mais 100 hectómetros cúbicos para a agricultura, sempre que as condições o permitam, justificando a medida com a elevada adesão ao regadio e com o crescimento das necessidades agrícolas, de abastecimento público e industriais.

Alqueva é atualmente uma gigantesca reserva estratégica de água. A albufeira tem uma capacidade total próxima dos 4.150 hectómetros cúbicos, segundo os dados oficiais da Comissão Nacional Portuguesa das Grandes Barragens.

É neste contexto que a hipótese de trazer água do Tejo ganha uma nova dimensão.

Ainda não há transvase aprovado, não existe uma obra decidida e muito menos uma data para começar a transportar água entre as duas bacias. O passo que está agora em preparação é precisamente o estudo que deverá determinar a viabilidade e os impactos de uma decisão desta magnitude.

Mas há uma diferença importante em relação ao debate dos últimos anos: CCDR Alentejo e EDIA procuram agora financiamento para colocar números, soluções técnicas e impactos económicos em cima da mesa.

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