Vítor Silva: Festival Terras sem sombra 2019

A propósito do Festival Terras Sem Sombra, que na passada semana levou a Washington uma embaixada do Alentejo, escrevi o seguinte texto para o seu catálogo de apresentação da edição de 2019.
“Homens velhos sentados mirando-nos com olhar de quem nada espera, uns de chapéu, outros de boné, alguns apoiados em cajados. Mulheres velhas curvadas por anos e anos de vida e de canseiras, de preto vestidas dos pés à cabeça, preto também o lenço com que cobrem a cabeça. Carroças puxadas a muares em estradas mal pavimentadas.
Foram estas as imagens com que o Alentejo se mostrou ao mundo durante décadas, já depois do 25 de Abril. Pretendiam alguns que fosse a nossa marca identitária, aquela com que afrontaríamos o desafio do desenvolvimento social e económico. Não perceberam ou não quiseram perceber que essa estratégia mais nos afastava das outras regiões do país, e da Europa em que, entretanto, nos integrámos.
Mas, como dizia Camões “todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades” e por detrás daquele cenário de velhice e resignação um mundo novo se gerou, um mundo em que a nossa marca identitária tem como seus pilares fundamentais, uma vivência colectiva solidária, o orgulho de sermos identificados como alentejanos e o empenho em que a qualidade se destaque em tudo o que fazemos. E incorporando nessa marca identitária todos os ensinamentos que uma história milenar ajudou a transformar em cultura.
É neste mundo novo que apareceu o Festival Terras Sem Sombra. Começando por ser um evento ligado à Diocese de Beja e dedicado à música sacra, progressivamente se foi libertando desses condicionalismos. Dirigido com grande inteligência pelos seus organizadores, é hoje uma referência nacional e internacional, apresentando espectáculos não só de música erudita, mas também de música popular, e a eles trazendo grandes intérpretes nacionais e internacionais. E sem nunca descurar o seu principal objectivo, que tem sido o de levar esses espectáculos a populações que normalmente a eles não têm acesso. Populações essas que já não são apenas as do Baixo Alentejo, pois que o festival começou a estender-se a outras partes do território alentejano e até nesta edição à nossa vizinha Extremadura Espanhola. Sem dúvida original, mas não menos importante, é o facto da programação do festival incluir acções de sensibilização e de defesa do ambiente e da biodiversidade.
Pela minha parte tem sido um orgulho e um privilégio participar na divulgação internacional do Festival Terras Sem Sombra, bem assim como nas verdadeiras embaixadas alentejanas que por vários países têm levado esta nova e verdadeira imagem do Alentejo: uma região que soube aliar os conceitos de autenticidade e de modernidade e em que a procura da excelência está presente naquilo que aí se faz”.