Vítor Silva: Telemóvel e condução

Segundo a imprensa desta terça-feira, a utilização de telemóveis enquanto se conduz, está a provocar 115 multas diárias em Portugal, ou seja, cerca de 42 mil por ano. De acordo com uma seguradora que tem estudado o assunto, 9 em cada 10 condutores usam o telemóvel, de quando em vez, enquanto conduzem. Este procedimento tem-se agravado de ano para ano e não é um fenómeno exclusivo do nosso país, é universal.
Esclareça-se que o uso de telemóvel enquanto se conduz não é ilegal, desde que se use um kit de mãos livres, que com cada vez mais frequência vem incorporado nos novos veículos, mas também se pode adquirir se o veículo não o tiver. Muitos daqueles 9 em cada 10 condutores, referidos pela tal seguradora, usarão um destes kits.
Não vale apena falar dos riscos de falar ao telemóvel enquanto se conduz, toda a gente os conhece. Mesmo a utilização legal do kit de mãos livres não é isenta de riscos,mas não são certamente superiores aos de se ir conversando com outros passageiros do veículo. O problema maior reside no comportamento daqueles condutores que usam uma mão para segurar o telemóvel e a outra para a condução.
Mas qual a razão pela qual tanta gente coloca a sua segurança e a de outros em risco ao proceder desta forma? Parece-me que a principal razão reside na existência do próprio telemóvel. As pessoas não mudaram com o aparecimento do hoje anacrónico telefone, do computador, do telemóvel e de tantas e tantas coisas que fazem parte da vida moderna e que parecem e muitas talvez sejam indispensáveis. Mas se as pessoas não mudaram, cada um destas invenções mudou o seu comportamento.
E se há coisa que mais o mudou foi o telemóvel. Em primeiro lugar pela sua portabilidade, depois pelo preço acessível e finalmente pelas funcionalidades que adquiriram ao poderem ser ligados à internet. Com esta funcionalidade o telemóvel passou a ser a principal ligação das pessoas com o mundo. E a maioria delas não suporta estar por mais que poucos minutos desligada desse mundo virtual. É andar na rua, é entrar num transporte público, num restaurante, num concerto e ver que em quase todo o lado a maioria das pessoas está a mexer no telemóvel.
E no automóvel também. E não é só para telefonar. Mais grave ainda: é para mandar e receber mensagens, mandar e receber mails e até ver vídeos.
Como é que se resolve este problema. Não é com certeza com campanhas de sensibilização, como ouvi hoje erradamente um responsável da Prevenção Rodoviária defender. Talvez obrigando a instalar em todos os veículos um kit de mãos livres, mas aí virão muitos dizer que não usam o telemóvel no carro. Não sei, mas alguma coisa terá de ser feita, porque cada vez mais acidentes estão a verificar-se devido ao uso indevido do telemóvel.
Francamente às vezes não sei se somos nós que usamos o telemóvel ou é ele que nos usa. Há poucos dias dava eu um passeio a pé ali pelo Parque da Cidade e deparei com um grupo de cerca de uma dezena de pessoas, de telemóvel em punho, que me apercebi andarem à caça de pokemons. Vieram-me à lembrança tempos idos em que nos enganavam ou nós enganávamos outros, para andarem à caça de gambozinos. Enfim, outros tempos.