Opinião: Sónia Calvário

A Iliteracia e a Bipolaridade

As redes sociais espelham uma bipolaridade preocupante e evidenciam o efeito manada tão presente na sociedade e que nos remete para as nossas raízes enquanto mera espécie desse grande reino animal a que pertencemos.

Compreender, usar e refletir a e sobre informação, para desenvolver o conhecimento de nós próprios e do que nos rodeia, são objetivos que estão por realizar, apesar de serem essenciais ao desenvolvimento e progresso social. O medo é um dos grandes obstáculos. E anda de mãos dadas com o preconceito. As redes sociais são canais que os exponenciam, palcos que permitem testar influências, mostrar putativas capacidades de liderança e deliciar egos.

Vem isto a propósito das narrativas – como agora se usa dizer – reproduzidas nas redes sociais e que ilustram bem o longo caminho que falta trilhar na consciência coletiva e inteligência emocional dos portugueses e dos bejenses.

A nossa história e cultura estão repletas de multiculturalismo, quer enquanto país exportador de mão-de-obra, menos ou mais qualificada, como de acolhimento do regresso dos nossos emigrantes e dos seus descendentes, mas também dos que veem em Portugal a possibilidade de fugir da fome, da guerra, da pobreza, de se realizar profissionalmente, e que, apesar de pequeno, é repleto de diversidade cultural, consequência, precisamente, dos nossos onze séculos de história, principalmente desde a época em que “abrimos novos mundos ao mundo”.

Como a dimensão histórico-cultural e humanista não parece convencer, falemos de alguns números:

Estima-se que existem 2 milhões e 300 mil emigrantes portugueses, a que acrescem outros tantos de lusodescendentes, espalhados por quase todos os cerca de 200 países do mundo, com exceção de 17 onde não há registo de compatriotas.

Em território nacional somos cerca de 10 milhões e Portugal é o 5.º país mais envelhecido do mundo, em que, desde a década de 80, se deixou de garantir a renovação da geração: cada portuguesa tem, em média, 1.4 filhos, e em que, desde os últimos 50 anos, se vive por mais 10, o que fará aumentar, em 2040, a idade da reforma para os 71 anos.

Em Portugal residem mais de 660 mil estrangeiros e, em 2018, eram mais mulheres do que homens. Os contribuintes não nacionais ascendem a 5,6 pontos percentuais e, em 2019, os trabalhadores imigrantes foram responsáveis por um encaixe financeiro nos cofres da Segurança Social de 84 milhões de euros. Os imigrantes são jovens e têm mais filhos do que os portugueses, são mais rapidamente atingidos pelo desemprego, mas apresentam uma maior taxa de atividade, quando comparados connosco, dedicando-se em grande medida a atividades profissionais para as quais não estamos disponíveis, como o trabalho agrícola, doméstico ou a construção civil.

A comunidade imigrante não cria desemprego, contribui para o rejuvenescimento da população e, em consequência, para garantir o Estado Social. E pode ser um importante fator de crescimento individual e cultural. Assim os saibamos integrar.

Sónia Calvário

Vereadora da CDU na Câmara Municipal de Beja